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Artigo: As celulites ideológicas e a malandragem do mercado em Anitta – Por Ygor Olinto Rocha Cavalcante

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Ygor Olinto Rocha Cavalcante é historiador, mestre em história social, pós-graduando em psicanálise e professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas.

Não há dúvidas de que Anitta seja a estrela pop mais inteligente e bem sucedida da história do mercado musical do Brasil recente. Vários são os elementos para afirmar esse lugar de destaque: o talento para transitar entre diversos gêneros musicais, do funk ao acid jazz, a rede de parcerias que reúne artistas do pagode ao tropicalismo, a capacidade de se colocar – altiva – no mercado internacional, a sensibilidade de utilizar diferentes plataformas digitais para comunicação com o publico e divulgação de sua obra. Enfim, ela sabe (muito bem) o que faz! Tanto é assim que o último projeto da cantora, o CheckMate, é um inegável acerto midiático e empresarial.

E como não podia deixar de acontecer, o lance decisivo de Anitta em 2017 causou uma hecatombe nas redes sociais. O clipe “Vai Malandra” dividiu opiniões entre aqueles que defendem o “empoderamento feminino” e os que criticam a “objetificação da mulher” que estariam presentes (ou não) no vídeo que já possui mais de 100 milhões de visualizações no Youtube.

Em poucas palavras, e sem querer menosprezar o debate, seria Anitta uma artista que reforça o establishment que movimenta a periferia do capitalismo ao transformar a mulher – e mais especificamente o corpo da mulher negra – em commodities, liberando o uso e os abusos que objetificam a mulher e inserem-na no circuito violento do laissez-faire machista?

Ou Anitta representa o poder da mulher senhora de si que enfrenta os padrões estéticos opressivos e traz para o lugar de consagração a representatividade da diversidade de belezas, com celulites, extra-grandes, transgeneros, brancas ou negras, da favela ou de qualquer lugar do (no) mundo? Esta leitura mais “crítica” explicaria, inclusive, a placa do mototáxi ANT 1256 em referência ao esdrúxulo projeto de lei que visa criminalizar o funk. Já chamaram Anitta de esquerdopata?

E se a verdadeira malandragem de Anitta residir na transformação dessa ambiguidade – entre empoderamento/subversão do patriarcalismo burguês e objetificação do corpo-bunda – em commoditie?

Não é a primeira vez que a “cultura brasileira” se insere no mercado global com sucesso. Lembre-se Carmem Miranda e o papagaio Zé Carioca, ambos representantes de um momento histórico no qual se viu a transição do samba e de elementos da cultura afro-brasileira (feijoada, capoeira, a malandragem e o candomblé) saírem da marginalidade para estrelarem a brasilidade em uma versão de exportação em Hollywood. Eram os anos da valorização da mestiçagem do Estado Novo, era Vargas, e de estreita relação do Brasil com os Estados Unidos, este último muitíssimo interessado em garantir um mercado externo após os efeitos da crise de 1929.

É fato que essa versão livre-exportação do Brazil para a Broadway ocultava contradições bem brasileiras: a miséria vivida por trabalhadores do campo e das cidades, as desigualdades raciais, regionais e de gênero. Em 1932, Noel Rosa, lembrava que “são coisas nossas”, também, “o malandro que não bebe, que não come, que não abandona o samba, pois o samba mata a fome (…) o vigarista e o bonde que parece uma corroça”.

Na contramão, Anitta aparece como uma artista que não sofre com o velho complexo colonizado de um país subdesenvolvido que enlata a sua cultura para exportá-la ao gosto estrangeiro esvaziando-a de suas referências autênticas e contraditórias, digamos assim. Afinal, ela volta ao Vidigal e mostra ao mundo sua “raiz”: mostra a celulite, a favela, a laje, a estética da periferia, a Lifestyle dos MC’s brasileiros, a mulher plus size, etc. Estaríamos diante da valorização da “realidade” brasileira.

Mas é exatamente aí que entramos no terreno da ideologia. O que se apresenta como crítica a certa linguagem do mercado pop global que esvazia culturas locais para inseri-las no pré-formato rentável artificial e seguro da cultura de massa, é, na verdade, parte do movimento do capitalismo pós-moderno que transforma tudo em sua imagem e semelhança, e captura em sua circulação incessante até mesmo aquilo que se pretende como crítica à sociedade e seus padrões normativos. O mercado parece mesmo preocupado com esse novo nicho das identidades.

Especula-se que a promoção da igualdade de gênero possa agregar quase 30 trilhões de dólares a economia global. As palavras feminism, empowerment, strong, tornam-se slogans em estampas de camisas, calças, bonés. Para completar o “look”, alguma montagem com a personagem Mulher Maravilha, super-heroína dos quadrinhos que, recentemente, ganhou uma versão mais powerful no cinema. Aliás, o mercado cinematográfico parece voltar suas telas para o público, e para o público infanto-juvenil: Valente, Frozen e Moana são alguns dos exemplos mais recentes.

Não seria o clipe Vai Malandra de Anitta uma versão “da favela” da história contada em Moana: a menina que sai do seu pequeno e precário lugar de origem, apesar da pressão da comunidade para que abandone seu sonho de se aventurar pelo mar adentro. A mensagem ideológica do filme é clara: apesar das dificuldades econômicas, raciais e de gênero, continue a sonhar.  Anitta, por sua vez, volta à “realidade” da favela após suas aventuras pelo mundo, enaltece suas origens, e, no final do clipe, desce o morro vestida com um capuz brilhoso, andar empoderado, salto alto, mais luxuosa, mais brilhante. Um curto-circuito possível entre Moana e Anitta revela que a favela também pode ser commoditie. O discurso de crítica aos padrões normativos e de atitude transforma-se, também, em mercadoria.

Não há nada que escape à territorialização mercantil do capital, desde a celulite da mulher fora do padrão estético machista até mesmo a mulher empoderada, senhora de si, de sua sexualidade e de sua carreira. Os dois lados da polêmica sobre o último clipe de Anitta, portanto, já foram enlaçados no CheckMate malandro do mercado.

Ygor Olinto Rocha Cavalcante é historiador, mestre em história social, pós-graduando em psicanálise e professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas.

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