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Artigo: Às ruas, ou a submissão – Por Enio Verri

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Deputado federal e professor licenciado do departamento de Economia da Universidade Estadual do Paraná

A procela em que foi jogada o Brasil, em 2016, não dá sinais de calmaria e não há terra segura à vista. A camarilha que assalta a nação cumpre a agenda para a qual foi colocada no Palácio do Planalto, pela elite mais mesquinha, brejeira e truculenta das Américas. Temer escapou enfraquecido da segunda denúncia apresentada pela Procuradoria Geral da República. Sabe que não passa nenhum projeto sem uma contrapartida a pelo menos 300 parlamentares. Por isso, abriu o Brasil ao capital privado, nacional e internacional, para se sustentar até as eleições de 2018.

No dia 1° de novembro, o decorativo Temer cumpriu mais um amplo compromisso com o nosso senhor deus mercado. Editou o Decreto 9188, segundo o qual, ativos brasileiros estão à venda. Ou seja, Eletrobras, Caixa Econômica Federal, Correios, entre tantas empresas, de várias áreas, deverão estar nas mãos de outras nações, para o desenvolvimento de seus povos. Não se trata de vender um prédio, ou um almoxarifado abarrotado de equipamentos, ou de entregar a tecnologia desenvolvida pela/os brava/os cientistas brasileira/os.

Temer entrega quase um século de investimentos em desenvolvimento tecnológico, logístico e humano que dizem repeito aos interesses da nação, à luz do dia, sem que os outros poderes se insurjam contra o atentado à soberania. Supera Fernando Henrique Cardoso, que não teve coragem ou competência para tanto. Vende a soberania, a competência brasileira para determinar como se dará o seu desenvolvimento. A autodeterminação de ser do brasileiro está sendo entregue a outras nações, sob um silêncio medonho das ruas.

A compulsão do brasileiro por desqualificar suas empresas estratégicas favorece o mercado privado, interessado nessa desqualificação. Talvez o brasileiro não saiba, mas, os Correios não são uma empresa de entregas de cartas, apenas. São o mais importante patrimônio público de logística, reconhecido internacionalmente. Desde a sua criação, não há um único endereço brasileiro, em seus registros, por mais inacessível que seja, que não tenha sido visitado pelos Correios. A empresa chinesa que o comprará pode não se interessar em manter uma série de serviços que favorecem populações de difícil acesso, ou mesmo deixar de atender essas localidades, com qualquer serviço.

A imprensa não conta, mas a Petrobras é uma das maiores petroleiras do planeta. É campeã mundial em prospecção e produção de petróleo em águas ultra profundas. Em 2015, sob intenso ataque da imprensa e da força tarefa da operação Lava Jato, a Petrobras foi premiada, pela terceira vez, com o OTC Distinguished Achievement Award for Companies, Organizations, and Institutions, um dos mais importantes reconhecimentos concedidos a uma empresa do ramo, pelos seus esforços em produção de tecnologias. Se a Petrobras está quebrada, como alega a camarilha Temer, por que as maiores petroleiras do mundo, privadas e estatais, a querem e estão comprando?

A venda da BR Distribuidora compromete a soberania brasileira aos interesses do capital estrangeiro, privado e estatal. A distribuição do petróleo e do gás passa a observar os interesses dos lucros das empresas e não a ótica do desenvolvimento do Estado, que investe econômica e socialmente em regiões mais pobres. O lucro do Estado, nesse tipo de investimento, é construir mais escolas que presídios. Quem fez e manteve as ferrovias e as redes de telégrafo dos Estados Unidos, até serem do interessante da iniciativa privada, foram os governos de Washington e Lincoln.

O mesmo aconteceu no Japão, anos 1800. Durante toda a era Meiji, o governo foi quem primeiro investiu no desenvolvimento da nação, inclusive com uma fortíssima obstrução de investimentos estrangeiros em terras japonesas, para estimular a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico da nação. No Brasil, atualamente governado por uma elite terceiro mundista, todo o patrimônio brasileiro deve ser entregue para o desenvolvimento da Matriz, a quem os sabujos devem devoção.

O assunto é do interesse de todas as famílias brasileiras, desde as mais abastadas às mais desapercebidas de despensa. O que se ouve, no entanto, é um apavorante silêncio de humilhante e abjeto consentimento de condenação do Brasil a eterno país periférico das decisões mundiais. Esse é o desejo e reflete o comportamento da elite. O assustador é observar que a maioria, a mais prejudicada, está desorganizada e apática. Não sabe como reagir.

A/Os leitora/es que, por ventura, nos acompanharam até aqui, façam sua parte, levem essa discussão a seus círculos de convívio social e provoquem o debate. A completa entrega da nação afeta o futuro de nossos filhos, de nossos netos, sobrinhos, filhos dos amigos, dos colegas de trabalho, da igreja, da escola e dos filhos dos desconhecidos, que também são brasileiros e não podem ser tratados como cidadãos de segunda classe. É crime de lesa-pátria retirar deles os meios pelos quais seria possível ascender intelectual, social e economicamente na nossa sociedade escravocrata.

É necessário dizer um não bem alto e contundente aos que assaltam a nação. Cobrar deles a devolução do que foi desviado e desencaminhado do botim, do golpe de 2016. Acompanhem como votam os deputados e senadores do seu estado. Observem como eles votam nas diversas matérias que afetam variadas agendas, como a dos estudantes, dos aposentados, dos mais pobres, da/os trabalhadora/es rurais e urbanos, das mulheres, dos transgêneros, entre outras minorias. Cobre da/os vereadora/es, pois ela/es são a ligação com a/os parlamentares federais.

Às ruas, é urgentemente necessário que ocupemos as ruas, uníssonos, a plenos pulmões, em uma inarredável desobediência civil pelas restituições da democracia e soberania nacional.

 

 

Deputado federal e professor licenciado do departamento de Economia da Universidade Estadual do Paraná

 

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