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Artigo : Engenharia nacional e desenvolvimento nacional – Por Aldo Rebelo

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*Aldo Rebelo, jornalista, foi presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), presidente da Câmara dos Deputados e ministro de Estado da Coordenação Política; do Esporte; da Ciência, tecnologia e inovação, e da Defesa.

Gilberto Freyre, com a liberdade que o sociólogo toma ao dicionarista, ampliou o conceito de engenharia como “aquela arte-ciência que desenvolve a aplicação de conhecimentos, quer científicos quer empíricos ou intuitivos, à criação e ao aperfeiçoamento de estruturas sociais; ou de formas de convivência social: inclusive política ou econômica.” Freyre adensa e unifica a definição e o conceito de engenharia como ação física ou social capaz de melhorar a vida da população, e elege a estrutura social como denominador comum de toda função da engenharia.

Em criativo ensaio sociológico, o estudioso pernambucano elege três categorias de engenharias – a física, a humana e a social, como capazes de moldar o futuro da humanidade e do Brasil. A rigor, a própria obra de Freyre, aplicado seu revolucionário conceito, foi também arrojada obra de engenharia em ciência social para construir uma descrição avançada da formação social brasileira.

Dito de outra forma, a construção do Brasil foi, e continua sendo, obra dessas engenharias, daí a conclusão de que não existe projeto nacional sem engenharia nacional, e de que a emancipação tecnológica do Brasil está subordinada ao nível de desenvolvimento de nossa engenharia.

No princípio, a engenharia civil com aplicação militar para erguer os fortes que protegeram as futuras fronteiras nacionais; a engenharia que ergueu os engenhos do nosso primeiro ciclo econômico, o do açúcar; e a engenharia passou a ser sinônimo de desenvolvimento e progresso no Brasil, diversificando suas aplicações e emprego para a construção do futuro do País.

Na divisão internacional do trabalho, que separa as nações prósperas das condenadas ao subdesenvolvimento, o nível de preparo e sofisticações da engenharia nacional são um divisor entre quem ingressa no primeiro grupo e quem fica agregado ao segundo time. O Brasil só consegue se situar entre as dez maiores economias industrias do mundo graças ao desenvolvimento de sua engenharia. Mas esta posição está ameaçada por um crescente processo de desindustrialização e perda de competividade em áreas importantes da economia.

Durante a Copa do Mundo no Brasil, quando ocupava o Ministério do Esporte, ouvi mais de uma vez dos inspetores da FIFA, que nossos estádios estavam sendo construídos com o que havia de mais avançado em engenharia, não apenas civil, mas elétrica, ambiental e hidráulica, entre outras. Ainda recentemente o embaixador de um grande país revelava na frente de testemunhas que muitas missões técnicas de engenheiros de sua nação visitaram Itaipu, considerada obra de vanguarda em sua especialidade. Quando passei pelo Ministério da Defesa sempre recebia referências elogiosas ao esforço vitorioso na construção da Embraer. Ainda no Ministério da Defesa visitei o marco na fronteira entre o Brasil e o Peru, erguido pelo engenheiro militar, civil e agrimensor Euclides da Cunha.

Mas a engenharia é uma reunião de conhecimentos e técnicas para aplicação prática; depende da prática para sobreviver e se desenvolver, e resta condenada ao declínio, ou mesmo ao desaparecimento, nas sociedades que perdem a capacidade de aproveitá-la praticamente.

O Brasil precisa da engenharia nacional para seu projeto de desenvolvimento soberano, da mesma forma que a engenharia nacional só sobreviverá integrando um projeto nacional de desenvolvimento que gere crescimento e esperança para o Brasil e para os brasileiros. Daí que os profissionais de engenharia e suas entidades representativas não podem ser indiferentes ao impasse vivido pelo País entre a regressão e o avanço rumo ao futuro.

Artigo publicado originalmente na Revista da APEAESP

*Aldo Rebelo, jornalista, foi presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), presidente da Câmara dos Deputados e ministro de Estado da Coordenação Política; do Esporte; da Ciência, tecnologia e inovação, e da Defesa.

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