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Manoel Rangel – Valeu, meu caro

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Foto divulgação

E no meio deste furdúncio político todo, dá-se o fim do mandato do Manoel Rangel à frente da Ancine. Foram 12 anos em que ele esteve ali, diretamente engajado na construção de uma política para o audiovisual brasileiro – período em que as transformações foram enormes. Sem contar os anos no Ministério da Cultura, como assessor do Gil e como parte da equipe da Secretaria do Audiovisual.

Acompanhei este processo de diferentes lugares. Da sociedade civil, vi a resistência que ele, Orlando Senna, Juca Ferreira e Gilberto Gil sofreram pela corajosa proposta da Ancinav. Vi surgir o Fundo Setorial do Audiovisual, numa aposta de que se poderia superar os mecanismos de incentivo fiscal sem precisar acabar com eles.

Lei 12.485

Pelo Intervozes, participei de forma engajada da discussão e aprovação da lei 12.485, com a participação direta do Manoel e sua equipe, numa negociação dura e inteligente feita por eles, com Bittar e o Ministério da Cultura de Juca Ferreira que resultou no mecanismo mais importante de abertura e democratização do audiovisual brasileiro. Participamos do debate sobre sua regulamentação, em diálogo com Glauber Piva e Roberto Lima, dialogando com Manoel sobre como garantir que os avanços da lei se materializassem na prática. Em todo este período vi Manoel muito comprometido em promover avanços, ao mesmo tempo muito comprometido em garantir que não se perdesse o que já se havia conquistado. Aquelas atitudes de quem sabe o tamanho do onde se quer chegar e o tamanho de sua responsabilidade.

2015

Em 2015 mudei de lugar nessa história ao assumir a Secretaria Executiva do MinC. A Secretaria é o principal sustentáculo da Ancine no MinC, ponte para todas as agendas com a área central do governo e parte importante na condução da política audiovisual. E aí deu para entender melhor o Manoel Rangel. Entender todas as brigas tácitas e explícitas que ele comprava para evitar que os mecanismos de fomento fossem capturados por qualquer parte. Perceber a resistência de poderosos a suas atitudes, pela defesa intransigente que fazia dos valores públicos. Ver, ao mesmo tempo, o respeito e o apoio de vários setores que nunca tinham tudo o que queriam, mas percebiam no Manoel alguém disposto a concertar as diferentes visões na busca do interesse público.

Deu para ver também todos os obstáculos diários que a política do audiovisual precisa superar para ser mantida. Um leão por dia no Rio, um dragão por semana em Brasília.
Depois de 12 anos, Manoel poderia estar passando de roda em roda, dando risada e tomando whisky pensando no seu futuro. Mas a opção foi de fincar pé no que acreditava até o último dia. Manoel Rangel não tem personalidade fácil. É daqueles que não está disposto a fazer média só para ficar bem. Batemos boca algumas vezes, discordamos algumas outras, mas no geral construímos uma parceria bem azeitada nos 16 meses em que estive ali. Baita honra pra mim ter dividido estes pouco mais de 10% do tempo que Manoel esteve na Ancine.

Uns poucos dados que ilustram este avanço:

– em 2005, houve 51 lançamentos de filmes brasileiros. Em 2016, foram 143

– Em 2005, a soma de editais, programas, prêmios, fundos e recursos incentivados para o audiovisual alcançava cerca de R$ 145 milhões. Em 2015 foram investidos ou captados R$ 712 milhões.

– As horas ocupadas pela produção independente na TV por assinatura passaram de 1% em 2009 para 11% em 2016

– O Fundo Setorial do Audiovisual foi criado em 2006. Começou a operar em 2009 com cerca de R$ 30 milhões investidos. Em 2015 investiu mais de R$ 440 milhões. Arrecada hoje mais de R$ 1 bilhão.

Isso são alguns exemplos dos enormes avanços. Evidentemente, não é que tudo deu certo. A participação do público de filmes brasileiros nas salas de cinema ainda é baixa. O mercado ainda tem assimetrias graves entre seus agentes. A agência está trabalhando para que os mecanismos de fomento tenham a agilidade que deles se espera. Mas talvez haja poucas áreas que tenham construído uma trajetória tão robusta no período Lula e Dilma. E Manoel tem enorme responsabilidade nisso.

Se há uma grande ausência neste período, eu diria que são as políticas de ação afirmativa para realizadores negros e negras. Estudo do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (grupo de pesquisa dedicado ao estudo das ações afirmativas, do IESP-UERJ) mostra que, das obras de longa metragem produzidas/lançadas entre 2004 e 2014, 80% têm como realizadores homens brancos, 14% são mulheres brancas, 2% são homens negros e 0% são mulheres negras. A desigualdade racial e de gênero no Brasil precisa ser enfrentada com ações afirmativas que deem condições para que a superação dessa diferença se dê de forma decidida e acelerada. Aqui fomos tímidos e falhamos.

Independentemente disso, esses anos todos ficarão marcados como de estabelecimento de uma política robusta para o audiovisual brasileiro. Processo em que figuras como Gilberto Gil, Juca Ferreira, Alfredo Manevy, Pola Ribeiro, entre outros, tiveram papel absolutamente estratégico. Mas hoje as homenagens vão para Manoel Rangel, um dos primeiros a entrar e o último a sair, contribuição enorme. Valeu, meu caro.

Texto  João Brant 

Categorias: Cultura, Destaque

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