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Acesso a escolas bilíngues em Libras é essencial para inclusão, diz professor surdo

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Especialistas afirmam que número de escolas bilingues em Libra e português ainda é irrisório / João Neto-ACS/MEC

O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) neste domingo (5) deu visibilidade à pauta da formação educacional de surdos no Brasil. Para especialistas ouvidos, o grande desafio para o país é ampliação de escolas bilíngues em Libras, que é a Língua Brasileira de Sinais, e português, que eles afirmam ainda ser irrisórias no País.

Jefferson de Jesus, professor de Libras na Universidade Federal do Paraná (UFPR), pontuou que a luta da comunidade surda é pela formação de professores e pela criação de escolas bilíngues que possibilitem a cultura e aprendizado em Libras nos moldes das escolas bilíngues em inglês, por exemplo.

O professor, que é pesquisador surdo, concedeu a entrevista por videoconferência, com apoio do intérprete de Libras, Sergio Ferreira. Jefferson comenta a diferença no aprendizado das pessoas surdas: “Toda a informação que um ouvinte tem no processo educacional se dá na sua língua materna ou portuguesa, no caso do estudante brasileiro. Porém, o surdo é diferente. Ele não teve todo o processo educacional na sua língua materna, que é Libras, mas em português. E isso gera uma defasagem na aprendizagem muito grande.”

Visibilidade

A designer e estudante de pedagogia Maria Luiza Dini, de 26 anos, ficou contente com a redação do Enem porque acredita que o tema, apesar de ser muito falado dentro de círculos de especialistas, ainda está defasado no Brasil. “Só pelo fato de estudantes não saberem o que responder já dá para partir dessa análise para falar o quanto é um tema que está sendo invisibilizado”.

Maria Luiza é surda oralizada, ou seja, se comunica também por meio da fala e leitura labial. Ela estudou em uma escola regular, — de pessoas ouvintes — em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo. Ela relata que teve dificuldade com o material didático, principalmente no caso de professores que utilizavam vídeos sem legendas em sala de aula.

“Eu acredito na formação de professores especializados em Libras. Conhecimento na comunidade surda também é extremamente importante. A inclusão não deve ser feita apenas para colocar alunos surdos com ouvintes em uma sala de aula com intérpretes. Temos que ter pedagogos e professores específicos em Libras e Português porque muitos intérpretes não têm formação naquela matéria e isso causa impacto para surdos sinalizados”, conta.

Para a coordenadora do curso de Letras Libras da UFPR, professora Sueli Fernandes, o tema de redação foi “muito surpreendente”. “A gente não esperava ser duplamente visibilizado. Foi uma dupla conquista”, disse, em referência à videoprova traduzida em Libras pela primeira vez no Enem neste ano.

De acordo com a professora, historicamente a discussão sobre a surdez sempre foi focada na necessidade de “normalizar” o surdo, como a aprendizagem da fala, auxílios e apoios da tecnologia da audição. Segundo ela, a prova do Enem pode ser a oportunidade de dar mais centralidade para a Libras como proposta de inclusão.

“A questão da normalização sempre foi alvo de debate na educação porque promove uma compensação de limitação auditiva e não propriamente dá visibilidade à grande pauta política do surdos, que é colocar a Libras como um direito linguístico e o surdo como minoria linguística brasileira que historicamente foi desrespeitada.”

Exclusão

No último domingo, a paulistana Gleice Genaro, de 33 anos e bilíngue em Libras e português, prestou a prova pelo segundo ano consecutivo. Ela é surda congênita e bilateral profunda e conversou com o Brasil de Fato por meio de mensagens de texto.

Este ano, refez o teste para provar a novidade desta edição, a videoprova. “Decidi fazer a prova para ter essa experiência única e histórica que é fazer a videoprova totalmente traduzida em Libras. Não tenho palavras para descrever a emoção quando olhei o tema da redação”, disse.

Do primário ao ensino fundamental, Gleice estudou somente nas escolas de surdos. Ela conta que, quando ingressou em uma escola pública foi o começo da exclusão.

Gleice concluiu o curso de Gestão Financeira na modalidade online e atualmente é aluna no curso de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) através do Enem em 2016.

Ela relata barreiras de acessibilidade em aulas e palestras na universidade: “A alegação é que a UFRJ não possui verbas e que o governo não havia preparado a universidade de receber os alunos com deficiência.”

Questionado pela reportagem, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), do Ministério da Educação, disse não ter disponíveis os dados de escolas bilíngues em Libras no Brasil.

Neste ano, o Enem recebeu 5.653 solicitações de atendimento especializado para a realização da prova, sendo 3.683 relacionadas a deficiência auditiva. Foram aplicadas 1.626 video provas traduzidas em Libras.

 

 

Brasil de Fato / Redação PMP 

Categorias: Destaque, Educação

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