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Idosa de 64 anos defende TCC de Serviço Social em universidade de Manaus

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Emocionada com a conquista, a filha de Audeniza, Sandra Teles, 41, entregou homenagem para a mãe. Fotos: Evandro Seixas

Manaus/AM- “O passar dos anos é inevitável. Envelhecer é opcional”. Para a agente comunitária de saúde Francisca Audeniza Teles Silva, 64, a terceira idade foi o momento de se formar na faculdade.

No começo da noite desta segunda-feira (05), Audeniza, como gosta de ser chamada, defendeu seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na graduação em Serviço Social, da Faculdade Salesiana Dom Bosco, no Centro de Manaus, e foi aprovada com nota máxima.

“Não foi fácil. Eu tinha um sonho. E esse sonho foi concretizado por meio do meu esforço. Estudando, lendo”, define a nova assistente social, que ganhou uma bolsa integral para cursar o Ensino Superior.

Trajetória

Os aplausos, gritos e abraços da família, dos amigos e dos professores que lotaram a sala de aula para acompanhar a defesa de TCC podem até ter emocionado dona Audeniza. Mas relembrar a trajetória de vida até a conclusão da graduação para a reportagem do Portal A Crítica foi o que realmente fez a senhora cair em lágrimas.

“Eu me casei com 14 anos e sofri muito dentro do meu relacionamento. Foi tudo muito precário. Eu apanhava. Apanhei grávida. Mas, mesmo assim, nunca abandonei meu esposo. Ele não queria que eu estudasse “, relembra.

Em 2010, Audeniza iniciou a graduação e estudou por um semestre, mas trancou o curso cansada das reclamações do marido e seguiu o “conselho” de uma amiga.

“Meu companheiro falava: ‘Você tem que deixar de estudar, você me deixa sozinho aqui dentro de casa’. Mas isso era o que eu queria. Só que ele insistiu tanto que eu tive que decidir. Então eu cheguei com uma pessoa e disse: ‘Amiga, o que você acha de eu trancar minha faculdade?’. Ela me respondeu: ‘Olha, você é idosa, pela sua idade, se eu fosse você, nem insistia’”, conta Audeniza, que disse ter esperado uma “luz” quando se aconselhou com a colega.

Aos 60 anos de idade, após a morte do marido, Dona Audeniza retomou os estudos, em 2014. “Quando ele faleceu, eu disse: ‘Vou continuar, vou concretizar meu sonho’. E estou hoje aqui. Estou muito feliz”, comemora.

‘Eu tenho um dom’

Além de trabalhar na Unidade Básica de Saúde S-07, no bairro Nossa Senhora Aparecida, Zona Sul, Audeniza desenvolve projetos para incentivar a leitura com crianças em situação de vulnerabilidade. O prazer em ajudar o próximo e uma pequena confusão com as tarefas da profissão de assistente social a levaram a escolher o curso de Serviço Social.

“Há 14 anos nós fazemos um assistencialismo na UBS S-07, fazendo ações para as crianças. E quando eu comecei a estudar, eu pensei que fazer assistencialismo era fazer Serviço Social, mas não é. Mesmo assim, é tudo que eu gosto de fazer. É o social. É orientar as famílias. Eu tenho um dom, que é ajudar as famílias”, afirma.

Turma do fundão

“As pessoas dizem que quem senta no fundão é bagunceiro, eu não sou bagunceira, não”, reclama Audeniza. Durante as aulas, ela se sentava no fundo da sala. E foi também com a ajuda dos amigos da “turma do fundão” que ela conseguiu finalizar o curso.


Dona Audeniza, Josué e a “turma do fundão”

Josué Gomes, 26, o único homem da turma em que Dona Audeniza estudou, é um dos amigos do fundão que ela cita com carinho.

“Quando a gente estava com dificuldade em algum assunto, a gente marcava e dava uma passada no conteúdo antes das aulas. Sempre que ela tinha alguma dificuldade, ela chegava e falava: ‘Josué, me ajuda, me dá uma luz aqui com essa matéria’. E a gente sempre ajudava com o maior prazer”, conta o colega que diz não se lembrar de ver Audeniza faltando em uma aula.

“Eu faltava. Mas a Dona Audeniza, mesmo doente, vinha para as aulas. É muito gratificante ver ela nesse momento tão importante para a vida dela”, completa.

Amiga-monitora

Desde o 3º semestre da faculdade, Audeniza ganhou uma aliada nos estudos. A assistente social Eliete Silva, 47, também formada na Faculdade Salesiana Dom Bosco, e especialista em Políticas Públicas “deu um reforço para que ela conseguisse assimilar as matérias”, como a amiga que também foi sua monitora define.

“Quanto mais o tempo passa, mais as coisas vão apertando para o estudante de Serviço Social. E tem momentos que se você é jovem já parece que vai pirar, imagina ela, na idade dela, sem um suporte por fora. Então eu fui esse suporte”, explica Eliete.

Um dos momentos em que Eliete mais contribuiu foi a produção do TCC. “Quando me falaram de fazer o TCC me deu um calafrio. Faz dias que eu não como e é capaz até de me dar uma diarreia”, brincou dona Audeniza, após a defesa.

Família

Audeniza teve seis filhos, sendo quatro homens (um já faleceu) e duas mulheres. Orgulha-se por ser avó de cinco netos e já ter dois bisnetos na família.

“Estou muito feliz porque ela conseguiu conquistar esse sonho. Porque não foi fácil. Ela enfrentou muitas dificuldades. Meu pai era muito machista. A gente tinha receio de falar para ele que não era assim. Ele era difícil, o que ele pensava tinha que ser. Mas mesmo assim ela persistiu”, avalia a filha Ana Maria Teles, 44.

“Esse momento, para ela estudar, foi o momento ideal porque meu pai ocupava a vida dela 24 horas e fazia hora extra. Não dava descanso. Era tudo controlado, como se fosse um quartel. Quando meu pai faleceu, nós sentimos muito, ficou um buraco. E a faculdade ocupou esse vazio para a minha mãe”, afirma Sandra Teles, 41, outra filha de dona Audeniza que também prestigiou a defesa de TCC da mãe.

Qualidade de vida do idoso

A frase do início desta reportagem foi a que Audeniza escolheu para finalizar os slides que apresentou na defesa de TCC. Na pesquisa, ela avaliou a qualidade de vida dos idosos atendidos pelo Centro Estadual de Convivência do Idoso (Ceci) do bairro Nossa Senhora Aparecida.


Como a sala onde aconteceu a defesa de TCC ficou lotada, professores deixaram o local para discutir a nota a ser dada ao trabalho de Audeniza

Concluindo o Ensino Superior, dona Audeniza afirma se sentir como uma jovem de 14 anos. Questionada sobre sua vaidade e preocupação com o visual, ela brinca.

“Eu sou idosa e vou orientar os meus pacientes. Para eu cuidar do meu pessoal, eu tenho que ter uma boa aparência, cuidar da minha qualidade de vida, da minha beleza. Como é que eu vou orientar o usuário se eu não cuido de mim, meu filho? A pessoa vai dizer: ‘Poxa, se a senhora não cuida nem de você, como quer dar essa experiência para a gente?’”, questiona.

Se engana quem pensa que a graduação é o fim da trajetória acadêmica de dona Audeniza. A meta, agora, é entrar em uma pós-graduação sobre teologia, por conta de sua fé. Que Deus a abençoe!

Acrítica / Redação PMP 

Categorias: Destaque, Educação

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